Ter um negócio Multi-Nível: empreendedorismo ou roubada?

Gostaria de compartilhar uma reflexão minha sobre o estilo de negócio conhecido por multi-nível. Sabe aqueles modelos de negócio que prometem a independência financeira vendendo produtos de alta qualidade, em algumas horas livres do seu tempo? Pois é sobre isso que quero abordar aqui.

É normal que se tenha um pré-conceito sobre o tema, comparando-o com piramides ou alguma forma de tirar dinheiro de pessoas que estão passando por dificuldades de grana. Já tive essa ideia e, não, eu não faço parte deste tipo de negócio e nem acho atraente, mas considero crível e que corresponda às expectativas sim, desde que praticado de maneira adequada e por pessoas que tenham o perfil para este tipo de negócio.

Tive a oportunidade de conhecer os dois modelos de negócios que mencionei e de poder avaliar a sua legitimidade. O multi-nível não é uma piramide, mas um ecossistema vivo e colaborativo por necessidade. O grande problema é que, quem está envolvido não tem, muitas vezes, o discernimento adequado para fazer a captação de pessoas, o que acaba virando um show de promessas de ganhos fantásticos e que você pode ter trabalhando uma ou duas horas por dia.

Bom, a ideia não é essa e está claro para quem prestar a atenção. É um ecossistema que precisa estar em equilíbrio, como qualquer outro. A ávida sede por aumentar redes para ter maiores bônus sem avaliar quem está vindo gera decepção de quem não está ali pelo motivo certo, aliás, quem está captando também não entende bem por que está ali.

Esses ecossistemas também possuem influenciadores, que também não conseguem ter um discurso alinhado com o negócio proposto. “Nosso propósito é focar em quem toma banho! A gente deixa de comprar carro, roupa, mas nunca de tomar banho”! – escutei isso recentemente de um desses influenciadores. Isso é o nicho de mercado e não o propósito. Outra coisa, existe uma coisa chamada “engajamento com uma marca” e não é qualquer pessoa que faz isso ruir porque tem um preço mais baixo. Já dizia a frase “O que vem por preço vai embora por preço”, o que não é bem o caso aqui, já que não falamos de produtos populares.

Quando um líder de negócios multi-nível tem dificuldades para atingir suas metas, o ponto sempre é “minha rede não tem comprometimento”, mas será que ele fez a coisa certa? Fez uma gestão adequada? Se preocupou com as pessoas que estava captando ou simplesmente estava ávido por aumentar sua rede e ganhar mais bonificações?

Isso é um negócio como outro qualquer e deve ser tratado como tal, senão se torna realmente uma piramide, uma forma de ganhar dinheiro por meio do esforço de outros ou simplesmente de ganhar o dinheirinho suado de quem está desesperado. Quando você apenas persuade alguém com esse objetivo, vai gerar desmotivação e essa pessoa vai se considerar enganada, caindo em um golpe. E a marca por trás disso pode culpar? Não, e pessoalmente não tenho tanta certeza de que se importe, afinal isso acontece faz tempo. No entanto, há pessoas sérias realmente trabalhando e que progridem dentro deste estilo de negócio, mas isso tem um motivo claro: tem um perfil adequado para isso.

Tenho um amigo de longa data que faz parte de um dos maiores grupos de negócio multi-nível do mercado. Eu acompanhei a briga dele para desenvolver o seu negócio e vi esse cara errar, cometendo esses erros que mencionei, aprender e mudar. O cara simplesmente entendeu o propósito dele dentro do negócio. Ele encontrou um nicho segmentado dentro de um nicho já delimitado e batalhou para crescer. Ele força amizade para vender produtos? Não, simplesmente encontrou quem estava disposto a pagar pelos produtos: CNPJ, e bom, não dá para convencer uma empresa a participar de um negócio multi-nível em que ela faça isso part time. O que ele faz com a rede? Ele compartilha experiências, ajuda quem tem dificuldades e não força ninguém a ser algo que não é. Ele entendeu a ideia de ecossistema. Se ele me convidou a participar? Sim, mas entendeu o lance do perfil e de que o modelo proposto não me seduz, além de que não adianta perder uma amizade só para tentar aumentar as bonificações.

Infelizmente, tem muita gente que não entende isso e força a barra! Muda nomenclaturas, inventam termos bonitos, floreiam o negócio… só para atrair novas captações. O resultado? Pessoas desiludidas, com o sentimento de que foram enganadas e que tiveram o dinheiro levado por espertalhões. Ninguém diz que é um negócio que tem um certo risco sim, que depende de perfil adequado para tocar e de que o lance do part time não é real. É um negócio! Já se viu tocar algo assim? E sim, é para vender! E para gerir pessoas! E que você tem que lidar com um ecossistema que visa resultados, resultados em multi-níveis, e que cobra pesado, mesmo que de forma velada, por esses resultados. Concordo com o jargão usado por eles “É um negócio para qualquer pessoa!”, mas não é qualquer pessoa que pode tocar.

Quando um modelo de negócio foca pesadamente em atingir resultados, as pessoas perdem, em multi-nível, dinheiro, sonhos… em uma empresa tradicional perdem qualidade de vida, saúde e também sonhos. Não se pode negligenciar o meio… nas pessoas e processos envolvidos para atingir os resultados. Reclamamos dos negócios multi-nível, mas será que em nossas empresas não existem gestores que atuam como esses líderes de negócio, roubando sonhos de colaboradores, sugando a força de trabalho através de um ambiente de trabalho pesado e exploratório, simplesmente por terem entendimento deturpado da estratégia da empresa? Como tornar um ecossistema colaborativo ao invés de deixá-lo exploratório?

Bom, para fechar eu quero deixar o que eu penso sobre esse tipo de negócio, se realmente empreendedorismo ou simplesmente promessas vazias… Sim, eu considero uma oportunidade de negócios legítima, mas se você tem esse perfil, o que definitivamente não é meu caso. Tocado por pessoas sérias e realmente comprometidas em desenvolver o negócio, que não é tão suave como vendem, dá certo. só que a camisa tem ser suada, e muito. Part time não é bem uma opção, a pessoa tem que respirar e acreditar nisso, não é como trabalhar na GM e ter carro da FIAT. O profissional tem que provar que é sério, por conta de tantos outros que não são assim. É um ecossistema, e por isso o pensamento deve ser no coletivo, senão vira esses carinhas que pegam a grana dos desesperados! E tem que vender… e quebrar engajamentos com marca! Tipo vender android para apple maníacos! Dependendo de quem faz o convite, pode se tornar a realização de um sonho ou uma armadilha e tanto, levando a um pesadelo! Assim como qualquer tipo de negócio ou emprego.

* Publicado originalmente no LinkedIn.

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